Menos de 35% dos profissionais do audiovisual brasileiro são pessoas negras

Apesar de formarem a maioria da população brasileira, as pessoas negras ainda representam menos de 35% dos profissionais empregados no setor audiovisual. Os dados foram apresentados pela Associação de Profissionais do Audiovisual Negro no Brasil (APAN), que divulgou uma carta direcionada ao setor cultural e aos candidatos nas eleições de 2026. Apartidária, a entidade defende […] O conteúdo Menos de 35% dos profissionais do audiovisual brasileiro são pessoas negras aparece primeiro em Revista Raça Brasil.

Menos de 35% dos profissionais do audiovisual brasileiro são pessoas negras

Apesar de formarem a maioria da população brasileira, as pessoas negras ainda representam menos de 35% dos profissionais empregados no setor audiovisual. Os dados foram apresentados pela Associação de Profissionais do Audiovisual Negro no Brasil (APAN), que divulgou uma carta direcionada ao setor cultural e aos candidatos nas eleições de 2026.

Apartidária, a entidade defende a criação e o fortalecimento de políticas públicas capazes de garantir não apenas a entrada, mas também a permanência de profissionais negros no mercado. A carta chama atenção especialmente para a desigualdade no acesso às maiores parcelas dos recursos públicos destinados à produção audiovisual.

Na televisão aberta, 65% dos profissionais com registros de emprego são brancos, enquanto pretos e pardos correspondem a 32,6%. Na produção cinematográfica, a diferença é ainda maior: pessoas brancas representam 69,6% dos trabalhadores, contra somente 29,3% de profissionais negros.

As desigualdades também aparecem na remuneração e na distribuição dos cargos. Segundo a APAN, profissionais negros estão concentrados principalmente em funções técnicas, recebem salários menores e são mais afetados pela informalidade e pela falta de proteção trabalhista. As mulheres negras enfrentam obstáculos ainda maiores dentro dessa estrutura.

O acesso ao financiamento público é outro ponto preocupante. De acordo com os dados divulgados pela associação, 94% dos filmes contemplados com recursos federais foram dirigidos por pessoas brancas. Entre as produções que receberam mais de R$ 5 milhões em verba pública, mais de 90% também têm direção branca.

Para Tatiana Carvalho, presidente da APAN e pesquisadora do tema, os números revelam quem tem a oportunidade de contar histórias e quais narrativas chegam ao grande público. “Cinema negro é cinema brasileiro”, reforçou, ao defender políticas afirmativas e uma organização menos excludente para o setor.

A entidade reconhece os avanços proporcionados pela Lei Paulo Gustavo e pela Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura. Um levantamento citado pela associação mostra que 58% dos festivais voltados às produções dirigidas por realizadores negros tiveram participação direta desses incentivos no último ano.

Outro dado demonstra como a produção audiovisual negra ganhou força recentemente: 83% das obras dirigidas por pessoas negras no Brasil foram produzidas depois de 2010. Para a APAN, o crescimento confirma a importância das políticas de financiamento, mas também evidencia o longo período em que esses profissionais ficaram afastados das oportunidades.

A carta propõe a ampliação das ações afirmativas e mecanismos mais eficientes de fiscalização. Atualmente, o percentual mínimo de recursos reservados por ações afirmativas é de 25%, sendo 15% destinados a pessoas negras, 5% a indígenas e 5% a pessoas com deficiência.

A associação também relata ter recebido denúncias de possíveis fraudes na aplicação das cotas. Em alguns casos, profissionais negros teriam assinado cartas de anuência para projetos, mas foram afastados quando os recursos chegaram às produtoras. A APAN defende a criação de bancas de heteroidentificação, semelhantes às utilizadas em universidades, para impedir o uso indevido das políticas raciais.

Entre as demais propostas estão a realização de mais festivais dedicados ao cinema negro, a ampliação da cota de filmes brasileiros nas salas de exibição e o uso de produções audiovisuais negras nas escolas. A iniciativa contribuiria para formar novos públicos e aproximar estudantes da história e da cultura afro-brasileira.

A presença de filmes como Feito Pipa, de Allan Deberton, Vicentina Pede Desculpas, de Gabriel Martins, e Nosso Segredo, dirigido por Grace Passô, entre as produções consideradas para representar o Brasil na disputa por uma indicação ao Oscar mostra a potência das narrativas negras. Entretanto, para a APAN, o reconhecimento de algumas obras ainda não representa uma mudança estrutural.

Ampliar a participação negra no audiovisual significa assegurar que a diversidade do Brasil esteja presente diante e atrás das câmeras. Também significa garantir que profissionais negros tenham acesso aos recursos, aos cargos de decisão e às condições necessárias para contar suas próprias histórias.

O conteúdo Menos de 35% dos profissionais do audiovisual brasileiro são pessoas negras aparece primeiro em Revista Raça Brasil.