Mateus Aleluia – um Orixá vivo!

Numa entrevista extraordinária, realizada no Programa “Extraordinários/Globo News”, por Aline Midlej, no último dia 17 de julho, Mateus Aleluia (82 anos), último remanescente do grupo Tincoãs, que fez enorme sucesso na década de 60, revelou ao Brasil a grandeza da sua presença na cena cultural brasileira. Nascido na cidade de Cachoeira/Bahia, berço da verdadeira independência […] O conteúdo Mateus Aleluia – um Orixá vivo! aparece primeiro em Revista Raça Brasil.

Mateus Aleluia – um Orixá vivo!

Numa entrevista extraordinária, realizada no Programa “Extraordinários/Globo News”, por Aline Midlej, no último dia 17 de julho, Mateus Aleluia (82 anos), último remanescente do grupo Tincoãs, que fez enorme sucesso na década de 60, revelou ao Brasil a grandeza da sua presença na cena cultural brasileira.

Nascido na cidade de Cachoeira/Bahia, berço da verdadeira independência do Brasil, (por isso mesmo chamada de Cidade Heroica), Seu Mateus (como é conhecido no mundo musical) deixou seus fãs alegres e felizes com o esbanjar/compartilhar de tanta sabedoria, firmeza e serenidade ao responder as perguntas da jornalista. Sim, Seu Mateus, a é muito mais que um artista talentoso ele é um verdadeiro griot da música afro-brasileira. Melhor dizendo:

Mateus Aleluia é um Orixá vivo!

Ou seja, ele encarna em vida, as qualidades de Xangô, com tal profundidade, grandeza e dignidade que merece, assim ser chamado. A resposta que ele deu ao ser perguntado sobre qual a mensagem que o amor teria nas suas canções, diz bem sobre o que estamos falando:

“O amor por si, ele se basta, ele é completo. Ele é o equilíbrio, ele é essa luz que está nos iluminando. Ele reúne, ele agrega, ele não afasta”.

Num momento em que as sociedades humanas vivem verdadeiros pesadelos produzidos a partir do ódio, da intolerância e da insensibilidade para com o próximo, pregar o amor com esse grau de profundidade é algo absolutamente revolucionário. Um balsamo para que nos anima a continuar na luta.

É importante dizer, que o canto de Mateus Aleluia, não é uma pregação vazia, desprovida de consciência crítica ou da razão. Muito pelo contrário, é um chamado de alerta que outro mundo é possível, sim, apesar de todo esse tormento. A suavidade da sua fala, encarna a firmeza da sua consciência e a sua determinação para a luta.

Na sua música icônica “Cordeiro de Nanã” ele deixa essa sua visão de forma absolutamente encantadora e clara. Não por acaso, a música virou quase uma oração ao longo dos últimos 60 anos.

“Sou de Nanã euá, euá, euá, ê.

Fui chamado de cordeiro, mas não sou cordeiro não.

Preferi ficar calado que falar e levar não

O meu silêncio é uma singela oração”

Esse é um refrão de fé, da identidade religiosa afro-brasileira, expressa no Candomblé e que exalta a devoção a Orixá Nanã, (orixá mais velha das águas paradas, da lama e da criação), a ancestralidade e a resistência cultural negra.

Talvez, por isso mesmo, ele não se furte a dizer, com orgulho, que viveu na África, aprendeu com a África e pesquisou a África, durante os mais de 20 anos que esteve em Angola. E que mesmo no meio das guerras de libertação, a busca maior daquele povo era pelo amor.

Amor a liberdade!

Recentemente, Seu Mateus enveredou pela literatura e lançou um livro rico em ensinamentos de como enfrentar as armadilhas do racismo colonial, em particular no campo da religiosidade. O livro, intitulado “Afrobarroco” é uma espécie de guia de valorização das manifestações culturais afro-brasileiras, como reza a Lei 10.639/2003. São inúmeras histórias vividas, outras tantas pesquisadas, agora compartilhadas.

Enfim, quanta honra e quanto orgulho que a população negra brasileira possui em compartilhar nossas vidas com uma figura como Mateus Aleluia. Agradecemos por você existir e resistir, poetar, cantar e amar. Viva Seu Mateus!

Toca a zabumba que a terra é nossa!

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