Escritoras Negras Existem: No Bixiga, a palavra virou território e resistência
No último sábado (18), a Escadaria do Bixiga — antigo Quilombo da Saracura — voltou a ser ocupada. Não por desfile, nem por carnaval, mas pela literatura. O Coletivo de Escritoras Negras Flores de Baobá promoveu o encontro “Escritoras Negras Existem – Foto Histórica”, dentro das celebrações do Mês da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. […] O conteúdo Escritoras Negras Existem: No Bixiga, a palavra virou território e resistência aparece primeiro em Revista Raça Brasil.
No último sábado (18), a Escadaria do Bixiga — antigo Quilombo da Saracura — voltou a ser ocupada. Não por desfile, nem por carnaval, mas pela literatura. O Coletivo de Escritoras Negras Flores de Baobá promoveu o encontro “Escritoras Negras Existem – Foto Histórica”, dentro das celebrações do Mês da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. O evento transformou o espaço em palco da literatura afro-brasileira, reafirmando a importância de um bairro que nasceu negro, periférico e que segue como símbolo de resistência.
Os dados mostram por que iniciativas como essa são tão necessárias. Segundo pesquisa da ONG LiteraSampa, apenas 3% dos livros publicados no Brasil entre 2020 e 2024 têm autoria de mulheres negras. Nas grandes editoras, esse número cai para menos de 1%. Na universidade, no mercado editorial e nas listas de mais vendidos, a mulher negra escritora ainda ocupa um espaço reduzido. Foi nesse contexto que a tradicional foto coletiva, realizada ao meio-dia, ganhou ainda mais significado ao reunir gerações, regiões e estilos diferentes em um mesmo registro. Desde 2020, essa imagem, feita a cada dois anos, tornou-se um documento histórico da presença de mulheres negras que escrevem, publicam e resistem.
Viver da literatura sendo uma mulher negra e periférica continua sendo um desafio marcado por inúmeras barreiras. “Eu escrevo de madrugada, depois que coloco meus filhos para dormir e termino meu trabalho de diarista. Se eu parar, ninguém publica por mim”, contou Jéssica Oliveira, 34, poeta da Zona Leste, durante o encontro. “Demorei dois anos para encontrar uma editora que não quisesse ‘amaciar’ meus poemas sobre favela”, afirmou Aline Nascimento, 28, cronista de São Bernardo do Campo. O sarau realizado após a fotografia coletiva reafirmou justamente esse espaço de pertencimento: um lugar onde essas mulheres não precisaram explicar suas vivências, traduzir suas narrativas ou pedir licença para existir.
O Bixiga também reafirmou sua força como território de memória. O Quilombo da Saracura resistiu naquele local até o início do século XX, antes de ser apagado pelo avanço urbano da cidade. Retornar à escadaria com poesia, literatura e corpos negros significou reconectar território e narrativa. Depois do retrato oficial, o encontro deu espaço para contos, crônicas, performances e um microfone aberto, permitindo que vozes historicamente silenciadas ocupassem, mais uma vez, o centro da cena.
Mais do que o nome de um evento, “Escritoras Negras Existem” reafirmou uma verdade incontestável: mulheres negras escrevem, publicam, produzem conhecimento e transformam a literatura brasileira. A iniciativa mostrou que a literatura não acontece apenas em grandes feiras, bienais ou clubes exclusivos. Ela também nasce nas escadarias, nas periferias e nos encontros coletivos, onde a escrita se torna instrumento de memória, identidade e transformação. No último sábado, o Bixiga lembrou que, se a história tentou apagar essas vozes, elas seguem respondendo da forma mais potente possível: escrevendo a própria história.
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