A cultura dos paredões: quando o território constrói sua própria mídia
Por Letícia Sotero No Brasil, ir para o paredão pode significar coisas muito diferentes. Para quem acompanha reality shows, estar no paredão significa correr o risco de ser eliminado. Na Bahia, dependendo do contexto, ir para o paredão pode significar exatamente o contrário: estar dentro, participar, encontrar gente, ouvir música e fazer parte de uma […] O post A cultura dos paredões: quando o território constrói sua própria mídia apareceu primeiro em Mundo Negro.
No Brasil, ir para o paredão pode significar coisas muito diferentes. Para quem acompanha reality shows, estar no paredão significa correr o risco de ser eliminado. Na Bahia, dependendo do contexto, ir para o paredão pode significar exatamente o contrário: estar dentro, participar, encontrar gente, ouvir música e fazer parte de uma experiência cultural que já possui seus próprios códigos. É desse lugar que gosto de observar a cultura, entendendo o que as pessoas já estão fazendo antes que o mercado transforme aquilo em tendência, e o paredão é um bom exemplo.
Mais do que um equipamento de som, ele funciona como uma infraestrutura cultural criada a partir do próprio território. Em diferentes regiões do Brasil, sistemas de som se tornaram parte da forma como comunidades produzem entretenimento, circulação musical e encontro. No Norte, a tradição das aparelhagens e movimentos como o Rock Doido ajudaram a consolidar uma cultura de grandes sistemas de som. Na Bahia, os paredões ganharam força em periferias, vaquejadas, festas, eventos populares e encontros que foram criando seus próprios circuitos.
Em Salvador, durante os anos 2000, era comum que a festa continuasse depois da festa. Carros com porta-malas abertos e sistemas de som potentes ocupavam as saídas de eventos e festivais, prolongando a experiência para além do espaço oficial. A partir daí, o paredão deixou de ser apenas som e passou a disputar potência, qualidade, iluminação, cenografia, estética e, principalmente, reputação. Alguns sistemas construíram marcas próprias, comunidades nas redes sociais, eventos e negócios de locação, e o equipamento virou ativo cultural.
E é justamente aqui que surge uma pergunta importante para o mercado: se existe uma comunidade, existe atenção. Se existe atenção, existe mídia. O paredão tem público, frequência, linguagem, repertório, circulação e capacidade de mobilização. Só que essa mídia não está necessariamente em uma plataforma tradicional, ela está no território. Enquanto o planejamento de mídia procura ambientes considerados seguros, mensuráveis e reconhecidos pelo mercado, uma série de estruturas culturais continua acontecendo fora desse mapa. Parte dessa invisibilidade também passa pelo modo como determinados territórios e estéticas são percebidos. Paredões são frequentemente associados a barulho, desordem, marginalidade ou entretenimento de baixa qualidade.
Existem, claro, conflitos reais envolvendo ocupação do espaço público, segurança e poluição sonora que precisam ser regulados, mas quando a única lente utilizada é a fiscalização, todo o ecossistema cultural e econômico que existe em torno daquela manifestação desaparece. E esse ecossistema é grande: há artistas, DJs, operadores de som, produtores, técnicos, iluminadores, montadores, fotógrafos, videomakers, designers e criadores de conteúdo trabalhando a partir desse circuito. Existem também artistas cuja produção encontra no paredão um espaço importante de circulação. Nomes como Malafaia na Voz e Rei dos Faixas mostram como existem repertórios e carreiras construídos para dialogar diretamente com esse público.
O paredão, portanto, não é apenas onde uma música toca. Em muitos casos, é parte do lugar onde essa música encontra público, ganha circulação e gera renda. Para as marcas, isso muda a pergunta: não é apenas “onde podemos colocar nossa logo?”. É como podemos participar de uma cultura que já tem público, linguagem e relevância?
Uma marca pode apoiar um artista, financiar uma produção, criar uma experiência ou entrar em um circuito cultural de forma coerente. Não precisa criar o território para participar dele, precisa primeiro aprender a reconhecê-lo. É esse o ponto do mapeamento cultural: mapear não é criar relevância para uma manifestação, é reconhecer a relevância que já existe. O mercado ainda procura muito por aquilo que está prestes a virar tendência, e talvez uma parte da oportunidade esteja justamente em olhar para aquilo que já movimenta pessoas, dinheiro, identidade e cultura, mas ainda não foi reconhecido pelos mapas tradicionais.
Na Bahia, estar no paredão não significa necessariamente ser eliminado. Pode significar estar exatamente onde a cultura está acontecendo.
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