De faxineira a escritora: brasileira da periferia de SP é a primeira indicada a prêmio internacional de educação multicultural
Aos 44 anos, Maria Aline Soares, moradora do Parque Regina no Campo Limpo, zona sul de São Paulo, fez história ao se tornar a primeira mulher negra brasileira indicada ao NAME Multicultural Children’s Publication Award. O prêmio é concedido pela National Association for Multicultural Education, a principal associação de educação multicultural dos EUA, com […] O conteúdo De faxineira a escritora: brasileira da periferia de SP é a primeira indicada a prêmio internacional de educação multicultural aparece primeiro em Revista Raça Brasil.
Aos 44 anos, Maria Aline Soares, moradora do Parque Regina no Campo Limpo, zona sul de São Paulo, fez história ao se tornar a primeira mulher negra brasileira indicada ao NAME Multicultural Children’s Publication Award. O prêmio é concedido pela National Association for Multicultural Education, a principal associação de educação multicultural dos EUA, com mais de 30 anos de atuação. Pedagoga formada pela Universidade Zumbi dos Palmares e ex-faxineira, Aline foi também convidada para palestrar na conferência anual da NAME, entre 18 e 21 de novembro de 2026, em Las Vegas, Nevada, com o tema “Activate: Our Communities Matter — Mobilizing Communities to Foster Belonging, Equity & Collective Impact”.
O reconhecimento veio pelo livro infantil “A Amiga Estadunidense da Abayomi”, escrito em parceria com a professora Dra. Marla R. Goins, da Universidade de Nevada. A obra conta a amizade entre Abayomi, menina brasileira, e Marla, estadunidense que passa uma temporada no Brasil. Juntas, elas descobrem heróis negros dos dois países como Zumbi dos Palmares, Carolina Maria de Jesus, Harriet Tubman e Frederick Douglass, tecendo uma ponte entre as diásporas africanas. “Mostramos a semelhança dos heróis negros que fizeram história aqui e lá. Assim, as crianças percebem que existem lutas e conquistas parecidas dos dois lados”, afirma Aline.
Da faxina à literatura, a escrita de Aline nasceu de uma dor pessoal. Foi durante a pandemia que ela decidiu realizar três metas: plantar uma árvore, ter um filho e publicar um livro. A ausência de personagens negros nas histórias da sua infância a motivou. “Tinha que curar a minha criança interior. Curando a minha criança interior, eu consigo curar as outras crianças”, diz. Autora de nove obras infantis, três já traduzidas para o inglês, ela publica pela Academia Periférica de Letras, editora do Capão Redondo, e integra o coletivo de professoras Abayomi. O projeto é ambicioso: lançar 30 livros, conforme conseguir recursos.
A parceria com Marla Goins começou em 2020, durante uma entrevista para a tese de doutorado da pesquisadora sobre professores negros brasileiros e antirracismo. O que era trabalho virou amizade. Elas se chamam de “Irmãs da Diáspora” e desde então desenvolvem projetos de intercâmbio cultural entre Brasil e EUA. Em 2024, apresentaram juntas um trabalho sobre literatura infantil e educação antirracista no 17º Congresso da BRASA. A indicação ao NAME coloca, pela primeira vez, uma obra produzida na periferia brasileira no centro do debate global sobre educação antirracista.
Agora Aline busca apoio para levar essa história para Las Vegas. Ela precisa de patrocínio para custear passagens, hospedagem e taxas da conferência. Quem quiser apoiar pode entrar em contato pelo @alinesoaresdivavaivai. “Não é apenas uma conquista minha. É a oportunidade de mostrar que a literatura produzida na periferia pode atravessar fronteiras e dialogar com o mundo inteiro”, afirma. De Campo Limpo a Las Vegas, a trajetória de Maria Aline prova que a literatura negra periférica resiste, cruza oceanos e finalmente recebe o reconhecimento que sempre mereceu.
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