Editorial – Sempre estivemos aqui
Entre o avanço da extrema direita e os limites da democracia, ainda há caminhos para mobilizar, dialogar e resistir
Em meio ao escândalo bilionário do Banco Master, crise no Supremo Tribunal Federal (STF) e escalada da violência política de raça e gênero, passamos por mais um capítulo dramático da democracia brasileira. Democracia essa que, agonizando entre os escombros de suas falácias, assiste o direito ao voto ser mobilizado pelo ódio, ressentimento e vingança contra determinados grupos políticos – mulheres, população negra, periférica, indígena, LGBTQIA+, povos e comunidades tradicionais – e as transformações que eles representam.
Passado o primeiro turno, a corrida presidencial segue acirrada. Em uma das raias, vemos Flávio Bolsonaro (PL), que, com a promessa de decretar “o fim da era do PT”, saiu na frente com 47,03% dos votos válidos e formou maioria de eleitores em 15 estados brasileiros. Nem mesmo as acusações de lavagem de dinheiro, o envolvimento com milícia, as ligações com o quadrilheiro Daniel Vorcaro e a polêmica por atuar na defesa de um policial acusado pelo assassinato de uma criança de 5 anos foram capazes de lhe tirar do páreo. Um pouco atrás, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que, apostando na promessa de fortalecer as políticas sociais e a soberania do país, não conseguiu ultrapassar a marca de 45,16% dos votos.
Utilizando ainda outra metáfora esportiva, podemos dizer que a disputa é um cabo de guerra puxado dos dois lados por forças abissalmente desiguais. De um lado, uma extrema direita que tem a seu favor as Big Techs e as armas poderosas do imperialismo estadunidense que avança contra a América Latina. Do outro lado, uma esquerda que, embora já tenha demonstrado sua capacidade de reduzir as desigualdades e fortalecer a autonomia do país, tropeça em seus próprios pés enquanto tenta driblar o descontentamento e o revanchismo que seus opositores souberam transformar em força eleitoral.
Para nós, eleitoras e eleitores que sabemos que o caminho para uma sociedade de justiça social passa longe da extrema direita, há pelo menos três eleições gerais, a sensação é que perdemos qualquer poder de negociação ou possibilidade de discutir um projeto político para o país. Nosso voto tem cumprido a importante e vital missão de amenizar a barbárie.
Fato é que, apesar de termos um posicionamento crítico ao projeto da esquerda em situação no governo federal, compreendemos que o anti-petismo e o ódio visceral dispensado ao presidente Lula, nascem justamente da implementação de políticas sociais que deram certo – com as quais concordamos e precisamos defender para evitar o aprofundamento das violências e desigualdades em nosso país.
Outro fato que precisa ser encarado é que, olhando para o Congresso pós primeiro turno e parafraseando Dilma Rousseff: Nem quem ganhar ou perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder. Pelos próximos quatro anos, a direita e o centrão, juntos, vão ocupar 65 das 81 cadeiras do Senado e também representarão a maioria na Câmara dos Deputados, com 286 dos 513 parlamentares da casa. Além disso, o próximo presidente irá escolher pelo menos 4 ministros para o STF, de forma que caso Flávio Bolsonaro seja eleito vai ter em suas mãos todos os poderes da nossa frágil República. Uma das pautas do presidenciável miliciano é inclusive o impeachment de membros do STF, que pode ser decidido por este Senado que hoje em sua maioria é alinhado à extrema-direita.
Enquanto o Partido Liberal amplia sua participação no Senado com seus policiais, milicianos e outras figuras de índoles questionáveis, e enquanto 13 envolvidos com o caso Master se elegeram – e um deles concorre à presidência da República – , perdemos a oportunidade de eleger importantes ativistas e parlamentares que possuem histórico político ilibado e compromisso com os direitos de toda população brasileira, como Benedita da Silva (PT-RJ), Marina Silva (Rede-SP) e Áurea Carolina (PSOL-MG).
Um cenário que não só ameaça direitos, mas também coloca em perigo os frágeis pilares da constitucionalidade que ainda seguram a política brasileira. Um cenário no qual presenciamos, mais uma vez, os homens brancos e suas políticas de morte avançando ao poder, enquanto nós, população negra, seguimos sub representados, sem os meios para disputar participação política efetiva.
Mas, em meio a tudo isso, compreendemos que já experimentamos o pior da história e que é preciso manter vivo o nosso combinado de não morrer e não desistir de disputar o Brasil. O cenário é estarrecedor, sim. Mas não é o pior cenário político vivenciado por um país que atravessou séculos de colonização, escravização e genocídio dos povos negros e indígenas. Não é o pior cenário, porque, há pouco mais de 60 anos, passamos pela ditadura militar e ainda amargamos seus resquícios. E o que dizer da pandemia de COVID 19 que, aliada à (falta de) gestão nefasta de Jair Bolsonaro, levou mais de 700 mil brasileiros à morte poucos anos atrás?
Mas nem tudo são dores. E o Brasil não seria o país que é se não fossem as mulheres negras, indígenas, feministas, que carregam no corpo e na trajetória as bandeiras da revolução: assistimos Érika Hilton (PSOL-SP) se reeleger e se consolidar como a deputada federal mais votada da história da Câmara. Ao seu lado, teremos Anielle Franco (PT-RJ), Olívia Santana (PCdoB-BA), Maria Marighella (PT-BA), Ana Elisa (PT-MG), Sônia Guajajara (PSOL-SP), Duda Salabert (PT-MG), Thabatta Pimenta (PSOL-RN), Rosa Amorim (PT-PE) e outras que levarão nossas narrativas ao Congresso e não irão tolerar as investidas contra nossos direitos.
As próximas três semanas serão árduas de mobilização e diálogo. É hora de ir para o corpo a corpo, de ter uma conversa sem rodeios com os 33 milhões de brasileiras e brasileiros que não foram às urnas neste primeiro turno – e somaram a maior taxa de abstenção em 1º turno registrada desde 1989. E nós, mesmo que insatisfeitos com os rumos da democracia brasileira, que nem em seus melhores momentos nos acolheu verdadeiramente, vamos para o diálogo pelo compromisso com a história, pela defesa do direito ao voto como ferramenta de intervenção nos rumos do país.
Ainda podemos disputar e conquistar os corações e mentes de quem, assim como nós, defende o direito à vida, à dignidade e à liberdade para todas as pessoas. Precisaremos sentar com parte da classe trabalhadora que conseguiu ascender socialmente, formar patrimônio e aumentar seus rendimentos para insistir que a sua realidade ainda é muito distante de quem acumula grandes fortunas e quer sequestrar o país para colocá-lo a serviço da manutenção de seus próprios privilégios.
Ainda podemos aprender com a experiência do Nordeste e seus nove estados que, mais uma vez, rejeitaram a extrema direita nas urnas. Podemos aprender com a Bahia que, depois de romper com décadas de domínio carlista, segue demonstrando nas urnas que nenhuma estrutura de poder é absoluta ou invencível. Não por idolatria a partidos ou políticos, mas porque há uma história de organização popular, consciência de classe e resistência negra que também se expressa através do voto.
Sempre estivemos aqui e não vamos desistir!