74 dias atrás das grades por um crime que não cometeu

O que começou como um gesto de solidariedade terminou em um pesadelo. Aos 18 anos, Wesley Andrade Ribeiro saiu para aproveitar um dia de folga na Praia Grande, litoral de São Paulo, e decidiu agir ao perceber um roubo em andamento. Em vez de ser reconhecido pela tentativa de ajudar a vítima, acabou confundido com […] O conteúdo 74 dias atrás das grades por um crime que não cometeu aparece primeiro em Revista Raça Brasil.

74 dias atrás das grades por um crime que não cometeu

O que começou como um gesto de solidariedade terminou em um pesadelo. Aos 18 anos, Wesley Andrade Ribeiro saiu para aproveitar um dia de folga na Praia Grande, litoral de São Paulo, e decidiu agir ao perceber um roubo em andamento. Em vez de ser reconhecido pela tentativa de ajudar a vítima, acabou confundido com os criminosos e passou 74 dias preso injustamente.

A história do jovem negro, ajudante de pedreiro e morador da Baixada Santista, escancara uma realidade denunciada há anos por especialistas em segurança pública e direitos humanos: o peso do racismo estrutural e das falhas nos processos de reconhecimento de suspeitos.

Segundo relato dado à Agência Pública, Wesley estava na praia do Jardim Ocian quando ouviu gritos e percebeu a fuga de dois adolescentes apontados como autores do roubo de uma corrente de ouro. Na tentativa de recuperar o objeto e auxiliar a vítima, ele correu atrás dos suspeitos. Poucos metros depois, foi surpreendido por agentes da Guarda Civil Municipal e tratado como um dos assaltantes.

Mesmo explicando que apenas tentava ajudar, Wesley afirma que foi mandado a se calar. Levado para a delegacia, teve sua versão ignorada e acabou tendo a prisão preventiva decretada. O jovem permaneceu mais de dois meses no Centro de Detenção Provisória da Praia Grande, distante da mãe e dos oito irmãos.

A inocência de Wesley só foi reconhecida durante a audiência do processo, quando a própria vítima declarou que ele não era o autor do crime. Com isso, a prisão foi revogada e ele acabou absolvido das acusações.

O caso não é isolado. Dados citados pela reportagem mostram que cerca de 1,4 mil condenações foram anuladas pelos tribunais de São Paulo e Rio de Janeiro em um período de cinco anos devido a erros judiciais. Outro levantamento do Conselho Nacional das Defensoras e Defensores Públicos-Gerais aponta que 83% das pessoas presas injustamente por reconhecimento fotográfico são jovens, pobres e negros.

Para a defesa de Wesley, a prisão foi desproporcional e sua versão dos fatos jamais recebeu a devida atenção durante a investigação. Enquanto isso, a Prefeitura de Praia Grande afirmou que a atuação da Guarda Civil Municipal ocorreu dentro dos protocolos adotados pela corporação.

Mais do que a história de um erro judicial, o caso de Wesley levanta uma pergunta incômoda para o Brasil: quantos jovens negros continuam sendo tratados como suspeitos antes mesmo de serem reconhecidos como cidadãos?

Quando a cor da pele pesa mais do que as provas, a injustiça deixa de ser exceção e passa a ser parte do sistema.

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